Cobenge 2001

Congresso Brasileiro de Ensino de Engenharia

Porto Alegre – RS

 

 

Por que fazer Engenharia Física no Brasil? Quem está cursando Engenharia Física na UFSCar?

 

 

Póvoa, J. M , Ducinei Garcia


Departamento de Física - Universidade Federal de São Carlos

Via Washington Luiz, Km 235

13565-905 - São Carlos – SP

povoa@df.ufscar.br, ducinei@df.ufscar.br

 


 

 

Resumo: Tem acontecido nos últimos anos no Brasil uma discussão bastante interessante e importante sobre o ensino de Engenharia. Parece que essa discussão ultrapassou os "muros das Universidades" atingindo os alunos que pretendem ingressar em algum curso superior. Ouvindo os alunos desde seu ingresso na Universidade, percebe-se que eles estão procurando por uma formação mais apropriada às exigências profissionais atuais, mesmo que para isso tenham que se esforçar um pouco mais. Esses jovens têm consciência de que novas idéias e novos desafios são a chave para a busca de conhecimentos sólidos e que, sem isso, sua formação será inócua no mundo atual. Apresentaremos nesse trabalho algumas questões e discussões que estão sendo feitas a nossos alunos do curso de Engenharia Física da UFSCar, tais como: o que esperam do curso? Por que optaram por um curso ainda novo no Brasil mesmo sem conhecerem ou entenderem bem onde poderão atuar profissionalmente? etc. Essas discussões nos levam a concluir que os alunos ingressantes na universidade, em particular no curso de Engenharia Física, esperam poder trabalhar na interface do que a ciência oferece e do que a sociedade precisa e almeja.

 

Palavras chaves: Engenharia Física, Conhecendo os alunos, UFSCar


1.            INTRODUÇÃO

 

Nos últimos anos a sociedade tem passado por grandes transformações que têm refletido intensamente nas pessoas, nas organizações e instituições em geral. As instituições de ensino necessitam acompanhar essas transformações, sob o risco de formar indivíduos inadequados para atuarem nesse mundo atual e futuro. Em particular no Brasil existe uma preocupação com a formação do Engenheiro ultimamente, principalmente após o projeto REENGE. Tem existido quase que um consenso de que o profissional do futuro deve ter habilidades tais como: ser um profissional estudante, ser multiespecialista, aprender a aprender e saber fazer, ser capaz de avançar no desconhecido, evitar a compartimentalização do saber além de uma sólida formação básica. (Pirro e Longo [1] )

No mundo atual está difícil definir um profissional diretamente vinculado a uma profissão. Em poucos anos muitas novas profissões deverão surgir e não é mais possível formar um indivíduo na universidade para exercer determinada função. Deve-se sim, formar um indivíduo para exercer funções novas. Para isso ele deve estar preparado para aprender.

Uma formação básica solida e atualizada, adquirida na universidade, servirá de base ao profissional para que ele aprenda a aprender. Para atender essa nova demanda de profissionais que a sociedade/mundo está exigindo, que o ensino  sofra modificações profundas nos conceitos do que é ensinar e/ou aprender. Os alunos e os professores devem formar uma equipe para atuarem nesse novo processo de aprendizado. Os professores devem entender que o modelo em que bastava o educador ficar na frente da sala de aula passando informações ou experiências vividas, não pode continuar. Também os alunos, que antes atuantes passivos deverão atuar de uma forma mais ativa querendo aprender.

Foi nesse período de transformações que teve inicio o curso de Engenharia Física (EF) na UFSCar (Araújo Moreira F.M, Póvoa. J.M,  [2]). Esse curso foi criado visando formar um profissional mais capacitado a acompanhar as mudanças que estão ocorrendo na sociedade. Acreditamos que muito há por ser feito, e esperamos contribuir com uma pequena parcela na formação adequada de profissionais para o mercado atual e futuro.

Para que alunos e professores possam atuar como equipe/parceiros, necessitamos minimamente conhecê-los. Em parte, estamos fazendo isso desde o seu  primeiro dia na universidade, através de um contato bastante intenso, em particular nas disciplinas oferecidas pelo Departamento de Física (Póvoa, J.M, Araújo Moreira, F.M [3]). Este é um privilégio desse curso pois o aluno já inicia cursando disciplinas no departamento responsável pelo curso.          

Acreditamos que esse contato com os alunos nos permitirá diagnosticar possíveis problemas desde os primeiros semestres do curso  para os quais procuraremos em conjunto com os alunos resolve-los da melhor forma possível.

Procurando conhecer um pouco mais nossos estudantes iniciamos neste ano (2o ano de existência do curso) um processo de busca de mais informações sobre eles. Para isso estamos acompanhando a pontuação e classificação no exame seletivo para ingresso no curso, assim como também fazendo uma série de perguntas que, acreditamos, poderá nos auxiliar no bom desenvolvimento do curso.

 

2. ALGUNS DADOS DO EXAME SELETIVO.

 

Analisando a pontuação geral e a classificação dos alunos que estão cursando EF percebemos pela dispersão da classificação que os primeiros classificados conseguiram aprovação em outras Universidades/cursos. Oferecemos 30 vagas e como pode ser visto na figura 1 e 2 a maioria dos alunos que estão cursando EF obtiveram classificação entre 20o e 80o tanto no ano 2000 (figura 1) quanto 2001 (figura 2). Esses dados nos levam a concluir que os alunos classificados nos primeiros lugares optaram, por diferentes motivos, por outras Universidades/cursos. No último exame seletivo dos 27 cursos da UFSCar os únicos a fazerem uma segunda chamada foram os cursos de Engenharia Física e Engenharia de Computação, todos os outros 25 cursos preencheram suas vagas na primeira chamada. A grande maioria dos alunos classificados que optaram por outros cursos estão cursando-os  na USP/Poli, ITA, UNICAMP, etc.

Comparando os gráficos mostrados na figura 1 e 2 perceber um aumento na nota de corte. No ano de 2000 a classificação do último colocado chamado para o curso foi de 164,5 pontos e em 2001 foi de 189,5 pontos. Esse aumento pode ter sido, pelo menos em parte, devido ao aumento da procura pelo curso, em 2000 essa demanda foi de 16,3 candidatos por vaga em 2001 foi de 21,2 candidatos por vaga, número esse que fez com que o curso de Engenharia Física ficasse em segundo lugar dentre as Engenharias da UFSCar, só perdendo para a Engenharia de Computação.

Analisando esse breve apanhado podemos ter uma idéia do tipo de aluno que procura e está cursando Engenharia Física na UFSCar.

 

 

 


 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fig. 1 – Pontuação e classificação dos alunos que ingressaram em Engenharia Física em 2000

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fig. 2 – Pontuação e classificação dos alunos que ingressaram em Engenharia Física em 2000

 

 

 

3.            CONHECENDO UM POUCO MAIS NOSSOS ALUNOS

 

Nessa parte do trabalho, baseamo-nos na experiência do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina (Bazzo W. A [4]). Fizemos uma série de perguntas aos alunos que ingressaram no curso afim de conhece-los um pouco mais. Se não conhecermos nossos alunos e no futuro nossos ex-alunos, pouco podemos fazer para o sucesso do curso, principalmente por se tratar de um curso novo no Brasil.

                Das duas turmas existentes observamos que as respostas às questões são bastante semelhantes. Dessa forma apresentaremos os resultados de uma forma geral, não especificando se o ano de ingresso foi 2000 ou 2001.

Muitas das perguntas que fizemos aos alunos já  nos têm sido feitas por alunos do ensino médio através de e-mail e/ou nas palestras que sido realizada  sobre o curso nas escolas ou feiras de vestibulares da região.

Do questionário apresentado destacamos algumas que passaremos a apresentar e discutir abaixo.

 

A primeira pergunta que fizemos foi: “Por que você escolheu fazer Engenharia Física?”

Em torno de 40%  dos alunos disseram que é por gostar de física mas, por não quererem fazer (ou os pais não quererem que façam) o curso de física, o curso de Engenharia Física abriu a possibilidade de fazer engenharia e estudar a física que gostariam.

57%  acham que é pelo desafio de fazer um curso novo no Brasil;

86%  acham que é por ser um curso com um enfoque um pouco diferente;

e  87%  acham que é por acreditar que o curso poderá propiciar uma formação mais condizente com a realidade que o mercado está exigindo.

Esses dados mostram como os jovens estão buscando por cursos diferentes na esperança de que essa diferença possa ser a saída para uma boa formação

 

A grande maioria (mais de 80%) não teve influência dos pais e/ou professores na escolha do curso.

Isso pode caracterizar uma certa independência do jovem atual na escolha do curso que  será a base para sua vida profissional.

 

Perguntamos; “ quais as expectativas deles sobre o curso?”.

74%  acham que estão fazendo um curso bom e só 10% já pensaram em mudar de curso.

97%  acreditam que o curso está ou vai oferecer uma boa bagagem de conhecimentos para sua vida profissional.

60%  já estão achando o curso muito difícil e 62% acham que não conseguirão concluir o curso em 5 anos. Essa é uma das características do curso de Engenharia Física não só na UFSCar, mas em todo o mundo. Geralmente os cursos de EF são mais difíceis do que a maioria dos cursos de Engenharia.

 

Para sabermos sobre a divulgação do curso perguntamos; “Onde você se informou sobre o curso?”

Para a nossa surpresa a maioria (76%) se informou sobre o curso através do manual do candidato e só 17% obteve informações de outros cursos de Engenharia Física antes de iniciar o curso.

Esses dados nos preocupa pois poucos alunos procuraram informações sobre o curso fora do Brasil. Na realidade, no mundo existe variações nos cursos de Engenharia Física, muitos deles já existem ha mais de 30 anos e podem não estar atendendo as necessidades da sociedade atual. Por exemplo em particular em Portugal muitos dos cursos de Engenharia Física são bastante parecidos com os nossos cursos de Engenharia de Materiais.

 

Algumas perguntas que fizemos visavam uma auto avaliação dos alunos sobre sua vida antes de ingressar na Universidade

Perguntamos  “da base com que chegaram no curso” e, 5% acham que é excelente, 41% acham que é suficiente, 36% acham que é boa, 16% acham que é regular e 0% acharam que é fraca.

A grande maioria (72%) classificou-se como um aluno acima da média e só 18% achavam que estavam na média, durante o ensino médio.

A grande maioria (82%) tem pai ou mãe e (48%) irmão ou irmã que fizeram um curso superior.

Esses dados nos leva a crer que nossos alunos tenham tido uma boa formação durante a vida e sua escolha pelo curso não aconteceu simplesmente por desinformação.

 

Para conhecer um pouco mais nossos alunos, perguntamos “sobre o porquê optou por fazer o curso e/ou o que está achando do curso”. E as respostas foram das mais diversas, como por exemplo:

“... me formei como técnico bioquímico  e estou cursando EF para absorver o conteúdo de exatas necessários para atuar em biotecnologia ...”

“...acho que o mercado atual exige profissionais multiespecialistas (hoje em dia não se pode ser um cara que só sabe resolver um tipo de problema)  ...”

“... o nosso tempo está sempre limitado e é difícil arranjar tempo para fazer outras atividades, pois se não tiver alguma prova muito difícil na outra semana, com certeza tem algum relatório trabalhoso para entregar .... mesmo assim pretendo terminar o curso porque sei que quando terminar terei aprendido muitas coisas ....”

“eu só não contava que podia ser tão difícil .... mas todos nós estamos nos esforçando para superar mais esse desafio ...”

“...ao ler jornais e revistas, percebi que o mercado necessita de uma profissional que seja multiespecialista, ou seja, que possui muito conhecimento em diversas áreas ...”

“ ... outro ponto fundamental para minha escolha foi a grade curricular que é muito interessante e bastante extensa ....”

 

Além desse tipo de perguntas, vale ressaltar que o contato com esses alunos tem sido constante. Em função desse dialogo constante não só com os alunos mas também com os professores que têm ministrado aula para o curso pequenas mudanças no que se refere à grade curricular e/ou ementa de alguma disciplina já foram sugeridas, e algumas adequações já estão em curso.

 

 

4.CONCLUSÃO

 

Sem sombra de duvida esse processo de conhecer o aluno com que trabalhamos pode evitar muitos problemas no  esse processo de conhecer os alunos assim como também de tomar conhecimento dos problemas em um processo de ouvir os alunos corre-se o risco de um pequeno problema se transformar em um grande problema no futuro, e isso com certeza contribuirá para que o curso não tenha o sucesso desejado.

Conhecendo os alunos quando de seu ingresso na Universidade podemos

Através desse tipo de questionário e também do conhecimento desses  jovens percebe-se que eles tem consciência de que alguma coisa deve mudar na sua formação, que profissões tradicionais já podem não ser suficientes para enfrentarem o futuro, por isso estão apostando no curso de Engenharia Física, ainda novo no Brasil.

O êxito desse curso e do futuro profissional Engenheiro Físico dependerá muito desses estudantes do curso de hoje,. Eles deverão ser capazes de continuar a aprender pelo resto de suas vidas, tornando-se profissionais estudantes.

 

5. BIBLIOGRAFIA

[1]           Pirro e Longo, W. Teleconferencia Engenheiro 20001

[2]           Araújo Moreira, F.M,  Póvoa, J.M., O primeiro curso de Engenharia Física do Brasil – Um projeto já concretizado. Anais do Cobenge 2000., Ouro Preto - MG

[3]           Póvoa, J.M., Araújo Moreira, F.M , O primeiro semestre do primeiro curso de Engenharia Física do Brasil, Anais do Cobenge 2000. Ouro Preto - MG

[4]           Bazzo, Walter. Antônio, PEREIRA, Luiz Teixeira do Vale, Conhecendo os alunos de um curso de Engenharia, Anais do Cobenge 1999. Natal - RN