Aprenda com os erros

Buda e Maomé tiraram lições do fracasso e tornaram-se grandes líderes

Por Paulo Markun

 


O erro é sempre mais pedagógico que o acerto. Todo fracasso encerra uma lição e pode ser encontrado na cultura, na ciência, nos negócios e até na religião. Vejamos alguns exemplos extraídos da história de dois dos maiores líderes religiosos: Maomé e Buda.

Um quinto da população do planeta (1,3 bilhão de pessoas) não hesita em apontar Maomé como o mais bem-sucedido profeta da história. Entre os muçulmanos, sua vida é bem conhecida. Mas no resto do mundo há quem ignore que o início de sua carreira foi um fracasso. Até os 40 anos, ele teve uma vida absolutamente comum. Finalmente, convencido de que um Deus único e onipotente dominava o universo, buscou convencer os mais íntimos dessa tese. Durante três anos pregou apenas entre seus companheiros. Quando finalmente passou a falar em público, seu êxito limitado incomodou o governo de Meca e ele teve de fugir para Medina, a 320 quilômetros dali. A hégira, sempre lembrada pelos muçulmanos, mudou a vida de Maomé, do islamismo e do mundo árabe. Em Medina, ele arrastou multidões até se tornar governante com plenos poderes. Seus seguidores atacaram Meca, para onde Maomé retornou em triunfo. Ao morrer, menos de três anos depois, já dominava todo o sul da Arábia. A unificação dos beduínos em torno de Alá -- e das idéias de Maomé, consolidadas no Alcorão -- tornou-se o impulso decisivo para a mais espantosa série de conquistas já realizadas.

Já o príncipe Sidharta não se sentia feliz em seu palácio em Kaapilavastu, na Índia, perto da fronteira do Nepal. Aos 29 anos de idade, abandonou o cargo, a mulher e o filho pequeno e todos os seus bens para se tornar um andarilho. Durante sete anos, tentou tornar-se um asceta, autoflagelando-se com jejuns e práticas dolorosas. Percebeu, finalmente, que o sofrimento só prejudicava o seu cérebro, não o aproximava da sabedoria. Voltou a comer e abandonou o ascetismo, até que teve uma revelação. Uma semana depois, Gautama Buda começou a viajar pelo norte da Índia. Durante os 45 anos seguintes, pregou sua filosofia -- de que é possível alcançar o nirvana pela eliminação do egoísmo e dos desejos -- a quem quisesse ouvir nos povoados no norte da Índia. Atualmente, 350 milhões de pessoas ao redor do mundo são budistas.

A lista poderia ir adiante. Basta lembrar que Confúcio peregrinou durante 13 anos de uma corte a outra. Tentou convencer os monarcas a adotar suas idéias sobre justiça e convivência em harmonia, até descobrir que era melhor lecionar. Escreveu cinco grandes textos da tradição chinesa e cunhou frases definitivas. Algumas delas cabem perfeitamente nesse contexto:

  • Exige muito de ti mesmo e espere pouco dos outros. Assim evitarás desgostos.
  • O homem que cometeu um erro e não o corrige comete um erro ainda maior.
  • Estude o passado, se queres prever o futuro.

    * Paulo Markun é jornalista, escritor e apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura

 

Publicado na revista Você S/A - edição 55 - Ed. Abril