O Elefante

Para entrar na Era do Conhecimento, você precisa aprender a desaprender

Por Silvio Bugelli*

 

Silvio Bugelli é consultor, conferencista e educador empresarial. Formado em Administração de Empresas com pós-graduação pela FGV, dirige a TCA Consultores e a Cempre, empresa de educação voltada a empreendedores e executivos



É bastante provável que você, leitor, esteja se perguntando o que faz um elefante bem aqui, no título deste artigo. A resposta é do tamanho da sua curiosidade: você pode fazer uma grande mudança na sua vida profissional, afinal, você está satisfeito com os resultados que vem obtendo, considerando todos os seus esforços?

O sentimento de que “está faltando algo” é comum a muitos profissionais. Mas o que será este algo? Voltemos ao elefante.

Conta uma história que um grande circo chegou a uma cidade e que quatro cegos que jamais tiveram contato com um elefante, resolveram conhecer o animal. Aproximaram-se do domador e pediram para tocar o elefante.

O domador concordou, e cada um se aproximou do elefante. O primeiro apalpou a perna do elefante, o segundo agarrou a tromba, o terceiro segurou o rabo e o quarto cego bateu no seu lombo. Depois disso, voltaram satisfeitos para suas casas, conversando sobre a experiência de conhecer um elefante.

- O elefante é uma pilastra firme e grossa e se parece com um tronco - diz o primeiro que apalpou a perna do elefante.
- Nada disso. - retruca o segundo que examinou a tromba - Trata-se de um tubo maleável, pesado e forte que se movimenta o tempo todo, lembrando uma mangueira de bombeiro.
- Tudo errado! – falou o que segurou o rabo do elefante - Eu constatei que o elefante é roliço e felpudo, como uma corda.
- Eu acho que vocês estão loucos! – corrigiu o que apalpou o lombo do animal - Não perceberam que ele é rígido como uma parede?

O “algo” que pode estar faltando para sua carreira deslanchar, possivelmente é o entendimento de todo o elefante. Na prática, poucos são os profissionais com visão sistêmica - herança da administração científica, na qual as atividades complexas de fabricação eram divididas em tarefas muito simples. A repetição das tarefas, permitiu o desenvolvimento de habilidades em apenas uma função específica.

O mundo corporativo de hoje está cada vez mais descontínuo. Se você ainda não se deu conta disto, então, cuidado, pois sua taxa de obsolescência pode estar mais alta do que você imagina. Neste caso, é preciso desaprender antigos conceitos da Era Industrial para incorporar aprendizados da Era do Conhecimento.

Um dos grandes problemas das corporações de hoje é que o trabalho especializado continua sendo estimulado. É muito lógico para uma vaga na área financeira de uma organização, a empresa buscar um profissional com graduação em administração, especialização em finanças e por que não um MBA em finanças, não é mesmo?

Mas, para se atingir um alto desempenho é preciso um aprendizado sistêmico. Isto explica o baixo desenvolvimento de quem escolhe “cavar sempre em um mesmo buraco”. Aprofundar os conhecimentos já obtidos torna você um profissional melhor, mas não um profissional de alto desempenho, pois isto é resultado de saber trabalhar as ambigüidades, aprender o novo e, principalmente, ser curioso.

É obsoleto o profissional de recursos humanos que não compreende resultados, ou o profissional de finanças que não compreende mercado, assim como o profissional da produção que não compreende seu papel de líder.

Tenha cuidado, porém, para não confundir o profissional de alto desempenho, que possui visão sistêmica, com um generalista. Se de um lado o especialista é aquele que sabe cada vez mais de cada vez menos, o generalista é aquela pessoa que sabe pouco de tudo, mas que é muito simplista diante dos problemas organizacionais. O alto desempenho está no profissional especialista com conhecimento sistêmico, que tem conhecimentos especiais e consegue conectá-los a um sistema maior, obtendo resultados sinérgicos.

Caso você se oponha a estas idéias não fique incomodado. Você pode enviar um e-mail expressando sua discordância ou simplesmente continuar pensando de maneira analítica, entender apenas das partes do elefante e construir sua carreira para ser lembrado por melhorias incrementais. Agora, se estas idéias fazem sentido a você que quer ser lembrado por criar algo importante e revolucionário na sua vida profissional, estaremos juntos em próximos artigos onde pretendo aprofundar e exemplificar ainda mais as relações que um profissional que desenvolve a visão sistêmica é capaz de fazer. Afinal, não é esta a sua busca: você em evolução?

*Silvio Bugelli é consultor, conferencista e educador empresarial. Formado em Administração de Empresas com pós-graduação pela FGV, dirige a TCA Consultores e a Cempre, empresa de educação voltada a empreendedores e executivos

Publicado na revista Você S/A - edição 55 - Ed. Abril