Qual é o "poblema"?

Formação medíocre gera profissionais despreparados, que, por sua vez, travam o crescimento de um país inteiro

Por Luciano Pires

 

 



Era 1976. Eu estava passando um mês na região de Irecê, na Bahia, no Projeto Rondon, que durante anos levou estudantes do Sudeste do Brasil para conhecer a realidade do Norte e Nordeste do país. A chegada "dos Rondon" nas vilas era uma festa. Atendíamos filas e filas de pessoas que jamais haviam consultado um médico nem ido a um dentista.

Um dia entramos numa salinha de aula. Havia umas 20 crianças e uma professorinha, que deveria ter seus 18 ou 20 anos. No quadro-negro estavam escritas frases que as crianças deveriam copiar. E, no meio das frases, palavras como "poblema", "nóis" e "craro". Erros gritantes de português escritos pela professorinha. Nunca me saiu da cabeça que aquelas 20 crianças seguiriam pela vida escrevendo "poblema". Como aquela professorinha, outras tantas da mesma turma deviam ensinar outras 400 crianças a escrever "poblema". E no ano seguinte seriam mais outras 400.

A professorinha era a única pessoa que aceitava dedicar seu tempo às crianças, recebendo um salário que, na época, deveria ser equivalente a 30 reais. Portanto, antes escrever "poblema" do que ser um iletrado ignorante.

Pouco tempo atrás, contratei um pessoal para fazer um serviço de pintura em minha casa. Comecei a conversar com o chefe do pessoal sobre outros problemas de marcenaria, hidráulica e eletricidade. E ele me disse que fazia todos esses serviços. No entanto, o resultado foi desastroso. A pintura ficou um horror. O ventilador ficou torto. A porta ficou terrível. E o vazamento voltou. Ele sabia, sim, de tudo um pouco. Pouquinho.

Ele aprendeu seu ofício da mesma forma que os alunos da professorinha: com alguém que ensinava um pouco do pouco que aprendera. Era evidente que ele não aprendera com um pintor, um eletricista, um marceneiro ou um encanador de verdade. Ele pensava que resolvia problemas. Mas só causava "poblemas".

Logo me vi refletindo sobre aquele microcosmo da minha casa. Aquilo era uma versão reduzida do Brasil. Um sujeito que aprendeu mal, fazendo o serviço mal, estragando o que estava mais ou menos, tendo de fazer de novo, causando gastos maiores, levando mais tempo, incomodando toda a família. É o mesmo caso da empresa aérea cujo check-in leva mais tempo do que deveria, que diz não ter lugar quando o avião sai metade vazio e vende um assento para duas pessoas. Ou o caso da transportadora que diz que a encomenda está liberada às 7 horas, mas só abre as portas às 8 e te segura lá até as 9.

Quase 30 anos depois da experiência no sertão da Bahia, descubro que cruzo todo dia com alunos da professorinha. Todos sabendo ler e escrever. Um pouco. Todos treinados em seus ofícios. Um pouco. Por essas e outras é que o Brasil anda pra frente. Mas com um "poblema": aos poucos.

(*) Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista, cartunista e atualmente diretor de comunicação corporativa da Dana

Publicado na revista Você S/A - edição 61 - Ed. Abril